Motivação intrínseca: o que é, como ela se diferencia da extrínseca e como cultivá-la
Motivação intrínseca é fazer algo porque é interessante, agradável ou tem sentido em si mesmo, não por uma recompensa, uma nota ou para evitar um castigo. A motivação extrínseca é o contrário: o motor é algo de fora da atividade, como dinheiro ou elogios. Segundo a teoria da autodeterminação, a motivação intrínseca cresce quando você sente que escolhe, que é capaz e que tem vínculos com outras pessoas. As recompensas podem enfraquecê-la, mas só em certas condições. A seguir: definições, exemplos, o que a pesquisa diz de verdade e como apoiar a motivação intrínseca em você e nos outros.
- A motivação intrínseca é querer fazer uma atividade por ela mesma; a extrínseca, querer fazê-la pelo que vem depois (uma recompensa, um reconhecimento, evitar um castigo).
- A teoria da autodeterminação (Ryan e Deci, 2000) aponta três necessidades que alimentam a motivação intrínseca: autonomia, competência e vínculo.
- Uma meta-análise de 128 experimentos descobriu que recompensas tangíveis esperadas e ligadas a fazer uma tarefa reduzem a motivação intrínseca, enquanto elogios e comentários informativos não (Deci, Koestner e Ryan, 1999).
- A motivação intrínseca prevê principalmente a qualidade do desempenho, e os incentivos, mais a quantidade; os dois podem funcionar juntos (Cerasoli, Nicklin e Ford, 2014).
- O prazer imediato previu a constância nas metas de longo prazo melhor do que os benefícios distantes (Woolley e Fishbach, 2017).
Motivação intrínseca e extrínseca: definições e exemplos
A motivação intrínseca aparece quando a atividade atrai você por si só. Você lê um livro porque ele interessa a você. Toca violão porque curte. Ajuda um amigo porque ele importa para você.
A motivação extrínseca significa que o motivo está fora da atividade: você estuda pela nota, trabalha pelo salário, faz exercício para sair bem nas fotos, arruma a casa porque vêm visitas.
| Atividade | Motivação intrínseca | Motivação extrínseca |
|---|---|---|
| Estudar | O tema me fascina, quero entender | Preciso passar na prova |
| Exercício | Adoro como me sinto depois de correr | Quero emagrecer antes do verão |
| Trabalho | Gosto de resolver problemas | Um bônus, uma promoção |
| Arrumar | Eu me sinto bem num cômodo arrumado | Vêm visitas |
Entre os dois extremos existe um contínuo. Richard Ryan e Edward Deci (2000) descrevem como você pode tornar seu até um motivo externo: você faz exercício porque valoriza a sua saúde, mesmo que o exercício em si não empolgue. Essa motivação internalizada funciona quase tão bem quanto a intrínseca.
Três necessidades que alimentam a motivação intrínseca
Segundo a teoria da autodeterminação (Ryan e Deci, 2000), a motivação intrínseca cresce quando três necessidades psicológicas básicas são atendidas:
- Autonomia: a sensação de que a escolha é sua. Ninguém controla você a cada minuto; você pode escolher como.
- Competência: a sensação de que você é capaz e está melhorando. A tarefa é um desafio, não uma montanha impossível.
- Vínculo: a sensação de pertencer. Você faz com ou para pessoas que importam para você.
Quando falta uma dessas necessidades, a motivação enfraquece. Por isso até uma atividade favorita perde a graça quando alguém vigia o tempo todo (autonomia), quando você não vê nenhuma melhora (competência) ou quando faz tudo sozinho (vínculo).
Quando as recompensas atrapalham e quando não
Um experimento clássico de Mark Lepper, David Greene e Richard Nisbett (1973): crianças que gostavam de desenhar receberam a promessa de um diploma por desenhar. Mais tarde, quando já não havia recompensa, elas desenhavam menos no tempo livre do que as crianças que não tinham recebido nada. É o chamado efeito de superjustificação: o motivo externo “cobre” o interno.
Mas uma meta-análise de 128 experimentos (Deci, Koestner e Ryan, 1999) mostrou que isso não vale para todas as recompensas:
- o que atrapalha são principalmente as recompensas tangíveis prometidas de antemão e condicionadas a fazer ou concluir uma atividade de que você já gosta;
- as recompensas inesperadas não atrapalham, e os elogios e os comentários que informam a sua melhora (“isso ficou melhor do que da última vez”) ajudam.
Christopher Cerasoli e sua equipe (2014) resumiram 40 anos de pesquisa: a motivação intrínseca prevê principalmente a qualidade do desempenho, e os incentivos externos, mais a quantidade. Eles não são inimigos: para a rotina chata (papelada, limpeza), uma recompensa externa pode ajudar.
Como cultivar a sua própria motivação intrínseca
- Encontre o seu motivo. Para cada meta, escreva uma frase: “Faço isso porque…”. Se você só encontrar “tenho que”, procure a parte que importa para você.
- Escolha o seu jeito. Mesmo nas obrigações, mantenha alguma margem de escolha: quando, onde, em que ordem, com que música. Uma pequena escolha reforça a autonomia.
- Ajuste o desafio. Fácil demais entedia; difícil demais assusta. No meio é onde também aparece o flow.
- Repare na sua melhora. Registre o progresso, não só as coisas concluídas. Mais em pequenas vitórias.
- Junte outras pessoas. Um parceiro ou um grupo com a mesma meta atende a necessidade de vínculo (parceiro de responsabilidade).
- Deixe a atividade mais agradável agora. Kaitlin Woolley e Ayelet Fishbach (2017) descobriram que, nas resoluções, o prazer imediato previa melhor a constância do que os benefícios distantes. Escolha uma forma de exercício de que você goste, não a “mais eficiente”.
A motivação intrínseca em crianças, estudantes e equipes
Os mesmos princípios valem quando você quer motivar outras pessoas:
- Ofereça opções onde puder: a ordem das tarefas, o método, o tema de um projeto.
- Elogie a melhora e o esforço concretos, não só os resultados ou o “talento”.
- Explique o porquê. Nas tarefas obrigatórias, um motivo com sentido ajuda.
- Cuidado com recompensas ligadas ao desempenho em atividades de que as pessoas já gostam.
Se a motivação sumiu completamente há muito tempo, não é questão de técnica: veja sem motivação para nada.
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Perguntas frequentes
O que é motivação intrínseca?
A motivação intrínseca é querer fazer algo pela própria atividade, porque é agradável, interessante ou tem sentido para você. O contrário é a motivação extrínseca, em que o motivo está fora da atividade: uma recompensa, uma nota, um reconhecimento ou o medo de um castigo.
Qual é um exemplo de motivação intrínseca e extrínseca?
Um estudante que estuda História porque o tema o fascina tem motivação intrínseca. Um estudante que estuda só pela nota tem motivação extrínseca. A maioria das pessoas tem uma mistura das duas em quase todas as suas atividades.
As recompensas acabam com a motivação intrínseca?
Às vezes. Recompensas tangíveis prometidas de antemão e ligadas ao desempenho podem reduzir a vontade de fazer algo de que você já gosta (Deci, Koestner e Ryan, 1999). Recompensas inesperadas quase não atrapalham, e os elogios ou comentários informativos costumam reforçar a motivação.
Como posso aumentar a motivação intrínseca?
Apoie as três necessidades da teoria da autodeterminação: autonomia (a sua própria escolha), competência (um desafio na sua medida e uma melhora visível) e vínculo (fazer junto com outras pessoas). Também ajuda encontrar um motivo pessoal e deixar a atividade mais agradável desde já.
A motivação extrínseca é ruim?
Não. Nas atividades chatas ou necessárias, muitas vezes é ela que funciona, e a pesquisa mostra que os incentivos externos preveem bem a quantidade de trabalho. O ideal é uma combinação: estrutura externa mais um motivo pessoal.
Fontes e leituras recomendadas
- Ryan, R. M. & Deci, E. L. (2000): Self-determination theory and the facilitation of intrinsic motivation, social development, and well-being – American Psychologist
- Deci, E. L., Koestner, R. & Ryan, R. M. (1999): A meta-analytic review of experiments examining the effects of extrinsic rewards on intrinsic motivation – Psychological Bulletin
- Lepper, M. R., Greene, D. & Nisbett, R. E. (1973): Undermining children’s intrinsic interest with extrinsic reward – Journal of Personality and Social Psychology
- Cerasoli, C. P., Nicklin, J. M. & Ford, M. T. (2014): Intrinsic motivation and extrinsic incentives jointly predict performance: A 40-year meta-analysis – Psychological Bulletin
- Woolley, K. & Fishbach, A. (2017): Immediate rewards predict adherence to long-term goals – Personality and Social Psychology Bulletin
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